Índice do conteúdo
- Resumo executivo: os primeiros 60 segundos de uma PCR pediátrica
- Este post é um hub de ação, não um curso completo
- Reconhecimento: por que agir antes da confirmação perfeita
- RCP de alta qualidade: o que realmente muda o desfecho
- Ritmo chocável ou não chocável: qual a diferença na conduta?
- Epinefrina: a droga que não muda com o ritmo
- Acesso vascular: não pause as compressões para conseguir uma veia
- Depois do retorno da circulação espontânea (RCE): o trabalho não acabou
- Perguntas rápidas sobre PCR pediátrica
- Continue aprendendo
Módulo 1 · Aula 1 de 4
⚡ Resumo Executivo · Ação Imediata

PCR Pediátrica: O Que Fazer Agora (Protocolo de Ação Imediata)
Por Carlos Felipe — Médico, CRMMG 105.721 · Publicado em 19 de agosto de 2026
Palavras-chave: PCR pediátrica o que fazer, parada cardiorrespiratória criança protocolo, RCP pediátrica passo a passo, ritmo chocável x não chocável, algoritmo PCR pediátrica, o que fazer numa parada cardíaca infantil, primeiros socorros PCR criança
Resumo executivo: os primeiros 60 segundos de uma PCR pediátrica
Você chegou agora. A criança não responde, não respira normalmente. Isto é uma parada cardiorrespiratória até prova em contrário. Não espere confirmação perfeita — aja.
- Confirme em até 10 segundos: sem resposta, sem respiração normal (ou só gasping), sem pulso central palpável (ou pulso duvidoso). Não perca tempo tentando sentir pulso por mais de 10 segundos.
- Peça ajuda e o desfibrilador/DEA imediatamente — grite, acione o time de emergência, mande alguém trazer o carrinho de parada. Nunca inicie sozinho sem pedir ajuda antes.
- Inicie compressões torácicas já — 100 a 120/min, profundidade de pelo menos 1/3 do diâmetro anteroposterior do tórax, permitindo retorno total entre compressões. Não espere o monitor, não espere o acesso venoso. Veja o detalhamento em RCP de alta qualidade.
- Ventile: 30:2 (um socorrista) ou 15:2 (dois socorristas) sem via aérea avançada. Com via aérea avançada, compressões contínuas + 1 ventilação a cada 2–3 segundos.
- Conecte o monitor/desfibrilador assim que disponível e identifique o ritmo: chocável (fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso) ou não chocável (assistolia ou atividade elétrica sem pulso). Veja ritmos chocáveis vs não chocáveis.
- Ritmo chocável → desfibrile já: 2 J/kg no primeiro choque, retome compressões imediatamente por 2 minutos, depois reavalie. Segundo choque 4 J/kg, choques seguintes até 4 J/kg (máximo 10 J/kg ou dose de adulto).
- Obtenha acesso IV/IO em paralelo às compressões — não pause a RCP para isso. Veja acesso intraósseo.
- Administre epinefrina 0,01 mg/kg IV/IO (máx. 1 mg) a cada 3–5 minutos, independentemente do ritmo ser chocável ou não. Veja função da epinefrina na RCP e a dose em dosepediatrica.com.br/medicamentos/epinefrina.
- Se ritmo chocável persistir após 2–3 choques, considere amiodarona 5 mg/kg IV/IO (pode repetir até 2 vezes) ou lidocaína como alternativa, conforme protocolo institucional.
- Troque o compressor a cada 2 minutos, mesmo sem sinais de fadiga percebida.
- Ao retornar a circulação espontânea (RCE), siga imediatamente para cuidados pós-PCR — via aérea, oxigenação-alvo, pressão arterial, glicemia, temperatura.
Isto é o esqueleto. O resto deste post amarra os detalhes de cada etapa — e por que cada uma existe.
Este post é um hub de ação, não um curso completo
A RCP de alta qualidade, os ritmos de PCR, o acesso intraósseo e os cuidados pós-PCR já têm posts próprios, profundos, no Guia de Estudos. Aqui o objetivo é diferente: amarrar essas peças numa sequência de ação única, para quem está diante da PCR agora e precisa saber o que fazer, na ordem certa, sem precisar ler quatro artigos separados sob pressão.
Reconhecimento: por que agir antes da confirmação perfeita
Em pediatria, a maioria das PCRs é de causa respiratória ou circulatória (hipóxia, choque), não elétrica primária como no adulto. Isso significa duas coisas práticas:
- Ritmos não chocáveis (assistolia, AESP) são muito mais comuns em crianças do que ritmos chocáveis — a fisiopatologia é diferente do adulto e o algoritmo reflete isso, mas a sequência de ação inicial (compressões + ventilação + epinefrina) é a mesma independentemente do ritmo até você conseguir monitorizar.
- Não protele o início das compressões esperando confirmar o diagnóstico com perfeição. Ausência de resposta + ausência de respiração normal (ou gasping) já é gatilho suficiente para iniciar RCP. Checar pulso não deve consumir mais de 10 segundos, e mesmo profissionais treinados frequentemente erram a palpação de pulso sob estresse — na dúvida, comprima.
RCP de alta qualidade: o que realmente muda o desfecho
Mais do que qualquer droga isolada, os parâmetros de compressão determinam a sobrevida:
- Frequência: 100–120/min.
- Profundidade: pelo menos 1/3 do diâmetro anteroposterior do tórax (~4 cm em lactentes, ~5 cm em crianças).
- Retorno total do tórax entre compressões.
- Interrupções mínimas, idealmente abaixo de 10 segundos.
- Troca de compressor a cada 2 minutos.
O detalhamento completo — incluindo a relação compressão-ventilação com e sem via aérea avançada — está em RCP de alta qualidade em pediatria.
Ritmo chocável ou não chocável: qual a diferença na conduta?
Assim que o monitor/desfibrilador estiver disponível, o ritmo determina o próximo passo:
- Chocável (fibrilação ventricular, taquicardia ventricular sem pulso): desfibrile. Primeiro choque 2 J/kg, segundo 4 J/kg, seguintes até 4 J/kg (teto de 10 J/kg ou dose adulta). Retome compressões imediatamente após o choque, sem pausar para checar pulso.
- Não chocável (assistolia, atividade elétrica sem pulso): não desfibrile — continue RCP e epinefrina a cada 3–5 minutos, investigando e corrigindo causas reversíveis (os "6H e 5T": hipóxia, hipovolemia, hidrogênio/acidose, hipo/hipercalemia, hipotermia, hipoglicemia; tensão no tórax por pneumotórax, tamponamento, tóxicos, trombose pulmonar, trombose coronariana).
Aprofundamento completo em ritmos chocáveis vs não chocáveis.
Epinefrina: a droga que não muda com o ritmo
0,01 mg/kg IV/IO (1:10.000) a cada 3–5 minutos, dose máxima 1 mg por administração, independentemente do ritmo ser chocável ou não. É a droga central da PCR pediátrica porque aumenta a pressão de perfusão coronariana e cerebral durante as compressões. Veja o racional completo em função da epinefrina na RCP e a referência de dose em dosepediatrica.com.br/medicamentos/epinefrina.
Acesso vascular: não pause as compressões para conseguir uma veia
Se o acesso IV periférico não for imediato, vá direto para o acesso intraósseo (IO) — é rápido, seguro e igualmente eficaz para infusão de drogas e fluidos na emergência. Detalhes técnicos, sítios de punção e cuidados em acesso intraósseo no PALS.
Depois do retorno da circulação espontânea (RCE): o trabalho não acabou
RCE não é alta da emergência — é o início de uma fase crítica. Via aérea definitiva, meta de oxigenação (evitar hiperóxia e hipóxia), suporte hemodinâmico, controle glicêmico e controle rigoroso de temperatura (evitar febre) reduzem lesão secundária. O protocolo completo está em cuidados pós-PCR.
Perguntas rápidas sobre PCR pediátrica
Quanto tempo devo checar o pulso antes de iniciar RCP?
No máximo 10 segundos. Se houver qualquer dúvida sobre a presença de pulso, inicie as compressões — o custo de comprimir um paciente com pulso presente é muito menor do que o custo de atrasar a RCP em uma parada real.
Qual a dose de epinefrina na PCR pediátrica?
0,01 mg/kg IV/IO da apresentação 1:10.000, dose máxima de 1 mg, repetida a cada 3 a 5 minutos enquanto a reanimação continua.
Todo ritmo de PCR pediátrica deve ser chocado?
Não. Apenas fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso são chocáveis. Assistolia e atividade elétrica sem pulso — os ritmos mais frequentes em pediatria — não devem ser chocados; a conduta é RCP contínua, epinefrina e correção de causas reversíveis.
Quando parar a reanimação?
Não existe um tempo fixo universal — a decisão considera duração da PCR, causa presumida, resposta às intervenções, presença de ritmo organizado em algum momento e contexto clínico (ex.: hipotermia, intoxicação, em que reanimações prolongadas podem ter desfecho favorável). Essa decisão deve ser tomada pela equipe assistente, nunca de forma isolada ou apressada.
Continue aprendendo
- RCP de Alta Qualidade em Pediatria
- Ritmos Chocáveis vs Não Chocáveis
- Função da Epinefrina na RCP
- Acesso Intraósseo no PALS
- Cuidados Pós-PCR
- Engasgo e Obstrução de Via Aérea em Criança
- Afogamento Pediátrico: O Que Fazer