Módulo 1 · Aula 4 de 4

⚡ Resumo Executivo · Ação Imediata

Médica com máscara e jaleco branco segurando o estetoscópio junto ao pescoço, pronta para atendimento de emergência

Convulsão em Criança: O Que Fazer Agora (Estado de Mal Epiléptico)

Por Carlos Felipe Médico, CRMMG 105.721 · Publicado em 19 de agosto de 2026

Palavras-chave: convulsão em criança o que fazer, estado de mal epiléptico pediátrico, crise convulsiva infantil primeiros socorros, quando dar benzodiazepínico na convulsão, diazepam dose crise convulsiva, midazolam crise epiléptica, convulsão febril x estado de mal


Resumo executivo: os primeiros minutos de uma convulsão

Uma criança está convulsionando agora, na sua frente. Proteja, cronometre e trate — nesta ordem, sem perder tempo.

  1. Proteja a criança de trauma — afaste objetos ao redor, coloque algo macio sob a cabeça. Nunca coloque nada dentro da boca, nunca tente conter os movimentos com força.
  2. Posicione em decúbito lateral, se possível, para reduzir risco de aspiração.
  3. Cronometre a crise a partir do início. Este é o dado mais importante que você vai usar nos próximos minutos.
  4. Avalie ABC: via aérea pérvia, respiração presente, coloração. Ofereça oxigênio suplementar. Monitore saturação se disponível.
  5. Verifique a glicemia capilar imediatamente — hipoglicemia é causa reversível de convulsão e deve ser corrigida em paralelo a qualquer outra medida.
  6. Se a crise atingir 5 minutos de duração contínua, ou se forem crises repetidas sem recuperação completa da consciência entre elas: isto é estado de mal epiléptico. Trate como emergência — administre benzodiazepínico agora, não espere a crise "passar sozinha".
  7. Primeira linha — benzodiazepínico, pela via disponível mais rápida:
    • Diazepam: 0,2–0,5 mg/kg IV (infusão lenta) ou 0,5 mg/kg via retal, se não houver acesso venoso. Dose máxima geralmente 10 mg por administração.
    • Midazolam: 0,2 mg/kg via intramuscular, intranasal ou bucal (útil quando não há acesso IV) ou 0,1–0,2 mg/kg IV, se houver acesso. Dose máxima geralmente 10 mg por administração.
    • Escolha pela via mais rápida disponível no momento, não pela via "ideal" — se não há acesso venoso, não perca tempo tentando puncionar antes de tratar por via IM/retal/intranasal.
  8. Se a crise persistir 5 minutos após a primeira dose, repita o benzodiazepínico (segunda dose).
  9. Se persistir após a segunda dose de benzodiazepínico, a criança está em estado de mal epiléptico refratário — escale para uma droga anticonvulsivante de segunda linha (ex.: fenobarbital, fenitoína/fosfenitoína, ou levetiracetam, conforme protocolo e disponibilidade institucional) e acione suporte avançado — via aérea definitiva pode ser necessária.
  10. Após a crise cessar, mantenha via aérea, monitorização e observação — reavalie glicemia, temperatura e considere investigação da causa (febre, infecção do sistema nervoso central, distúrbio metabólico, trauma, intoxicação, epilepsia conhecida com falha de medicação).

Quando uma convulsão vira emergência de verdade

A maioria das convulsões pediátricas — incluindo a convulsão febril simples, a mais comum na infância — cessa espontaneamente em poucos minutos e não exige medicação de emergência. O que transforma uma convulsão em uma emergência de risco de morte é a duração e a ausência de recuperação entre crises:

  • Convulsão com duração ≥ 5 minutos contínuos = estado de mal epiléptico, trate.
  • Crises repetidas sem retorno da consciência entre elas = estado de mal epiléptico, mesmo que cada crise isolada dure pouco.

Por que 5 minutos e não "esperar mais"? Porque a partir desse ponto o risco de a crise não cessar espontaneamente aumenta muito, e a convulsão prolongada causa lesão neuronal, hipertermia, acidose e comprometimento respiratório progressivo. Esperar além disso na expectativa de que "vai passar" é o principal erro de quem nunca atendeu uma emergência assim.

Via aérea durante a convulsão: o que fazer e o que nunca fazer

  • Nunca insira objetos na boca — não protege a língua (mito comum) e pode causar trauma dentário, laceração ou obstrução.
  • Não contenha os movimentos por força.
  • Posicione em decúbito lateral quando possível, reduzindo risco de aspiração de secreções ou vômito.
  • Ofereça oxigênio suplementar e monitore saturação — a hipoventilação durante a crise é comum e a apneia pós-ictal pode ocorrer.
  • Se a via aérea estiver comprometida de forma persistente (crise prolongada, apneia, rebaixamento pós-ictal profundo), considere manobras de abertura de via aérea e suporte ventilatório, escalando para via aérea avançada se necessário — especialmente após doses repetidas de benzodiazepínico, que têm risco de depressão respiratória.

Benzodiazepínicos: qual, quanto e por qual via

O tratamento de primeira linha do estado de mal epiléptico pediátrico é um benzodiazepínico, escolhido pela via mais rápida disponível:

SituaçãoDrogaDoseVia
Acesso IV disponívelDiazepam0,2–0,5 mg/kg (máx. ~10 mg)IV lenta
Acesso IV disponívelMidazolam0,1–0,2 mg/kg (máx. ~10 mg)IV
Sem acesso IVDiazepam0,5 mg/kg (máx. ~10 mg)Retal
Sem acesso IVMidazolam0,2 mg/kg (máx. ~10 mg)IM, intranasal ou bucal

Ponto crítico de decisão: não perca tempo tentando puncionar um acesso venoso difícil em uma criança convulsionando. Se a via IV não estiver disponível de imediato, trate pela via alternativa mais rápida — intramuscular, intranasal, bucal ou retal — e obtenha acesso venoso em paralelo, não antes.

Se a crise persistir 5 minutos após a primeira dose de benzodiazepínico, repita uma segunda dose. Watch for depressão respiratória cumulativa, especialmente após duas doses — tenha suporte ventilatório pronto.

Refratário: quando escalar além do benzodiazepínico

Se a crise persistir após duas doses adequadas de benzodiazepínico, trata-se de estado de mal epiléptico refratário — a criança precisa de uma droga anticonvulsivante de segunda linha (fenobarbital, fenitoína/fosfenitoína ou levetiracetam, conforme disponibilidade e protocolo institucional) e de suporte avançado de via aérea, já que tanto a crise prolongada quanto as doses repetidas de benzodiazepínico aumentam o risco de depressão respiratória grave. Esse é o momento de acionar terapia intensiva pediátrica, se ainda não estiver envolvida.

Não esqueça a glicemia

Hipoglicemia é uma causa reversível de convulsão e deve ser verificada e corrigida em paralelo ao tratamento anticonvulsivante, não depois. Uma gota de sangue capilar e um glicosímetro podem mudar toda a conduta.

Depois que a crise cessa: o trabalho de investigação começa

Uma vez controlada a crise, o foco muda para:

  • Reavaliar via aérea, respiração e nível de consciência (período pós-ictal é esperado, mas deve estar melhorando, não piorando).
  • Investigar a causa: febre/infecção, distúrbio metabólico (glicemia, sódio), infecção do sistema nervoso central (considerar em crianças com febre, rigidez de nuca, rebaixamento desproporcional), trauma, intoxicação, ou falha de medicação em criança com epilepsia conhecida.
  • Comunicar-se com a família sobre o ocorrido e os próximos passos de investigação/internação, conforme o contexto clínico.

Perguntas rápidas sobre convulsão pediátrica

Toda convulsão em criança é uma emergência?

Não. A maioria das convulsões pediátricas, incluindo a convulsão febril simples, cessa espontaneamente em poucos minutos e não precisa de medicação de emergência. A emergência verdadeira é a convulsão que atinge 5 minutos de duração ou as crises repetidas sem recuperação completa entre elas (estado de mal epiléptico).

Posso colocar algo na boca da criança para ela não engolir a língua?

Não. Isso é um mito. Colocar objetos na boca não protege a via aérea — pelo contrário, aumenta o risco de trauma dentário e obstrução. A conduta correta é posicionar em decúbito lateral e proteger o ambiente ao redor.

Qual benzodiazepínico usar se não tenho acesso venoso?

Midazolam por via intramuscular, intranasal ou bucal (0,2 mg/kg) é geralmente a opção mais prática sem acesso IV. Diazepam retal (0,5 mg/kg) é outra alternativa validada.

Depois que a convulsão para, a criança precisa de exames?

Na maioria dos casos de convulsão febril simples em criança sem outros sinais de alarme, a investigação pode ser limitada. Já em estado de mal epiléptico, primeira crise afebril, sinais neurológicos focais, febre com sinais de irritação meníngea, ou crise sem causa clara, a investigação (incluindo exames laboratoriais, de imagem e possivelmente análise do líquor) deve ser guiada pela avaliação clínica da equipe assistente.


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