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Módulo 3 · Aula 3 de 6

Mão enluvada auscultando bebê recém-nascido logo após o parto, com cabo de monitorização visível

Como Fazer a Avaliação Completa da Via Aérea Pediátrica

Por Carlos Felipe Médico, CRMMG 105.721 · Publicado em 11 de abril de 2025

TAGS: via aérea, respiração, obstrução de vias aéreas, distúrbios respiratórios, avaliação pediátrica, PALS, hipoxemia, sinais vitais


Introdução

A avaliação da via aérea em emergências pediátricas é um dos pilares do protocolo PALS (Suporte Avançado de Vida Pediátrico), um sistema crítico que visa estabilizar e salvar vidas em situações de parada cardiorrespiratória e outras emergências. No entanto, a via aérea não é apenas uma questão de “aberta ou obstruída”. Ela envolve uma análise detalhada da permeabilidade das vias respiratórias, da qualidade da respiração e da eficiência da oxigenação.

O que é uma via aérea "patente"?

Uma via aérea é considerada patente quando não há obstrução e o ar pode passar livremente para os pulmões, permitindo a troca gasosa adequada. Em crianças, garantir que a via aérea seja patente e preservada é vital, pois pequenas obstruções podem rapidamente comprometer a ventilação e causar hipoxemia (falta de oxigênio) e hipercapnia (acúmulo de dióxido de carbono), levando a arritmias, acidente vascular cerebral ou até parada cardiorrespiratória.

O que é uma via aérea "preservada"?

A via aérea preservada é aquela em que, mesmo com dificuldades respiratórias, ainda é possível que o ar passe. Isso pode ocorrer quando há obstrução parcial das vias aéreas, o que exige intervenção rápida para evitar a deterioração do quadro clínico.


Quais são os componentes da avaliação da via aérea?

Para garantir que a via aérea esteja patente e preservada, a avaliação deve ser baseada em parâmetros objetivos e sinais clínicos:

1. Frequência Respiratória

A frequência respiratória (FR) é um indicador direto da eficácia da ventilação e do esforço respiratório. Alterações na frequência respiratória podem indicar desde uma obstrução leve até um comprometimento grave das vias aéreas.

IdadeFrequência Respiratória Normal
Recém-nascidos30–60 por minuto
Lactentes (1–12 meses)25–55 por minuto
Crianças (1–5 anos)20–40 por minuto
Crianças maiores (6–12 anos)16–30 por minuto
Adolescentes (acima de 12 anos)12–20 por minuto

Dica PALS: Frequências muito altas (taquipneia) ou muito baixas (bradipneia) são indicativos de dificuldades respiratórias graves. Quando a FR está anormal, é necessário observar se está associada a uma respiração mais superficial ou profunda (hiperpneia), o que pode indicar insuficiência respiratória ou hipoxia.

2. Esforço Respiratório

A presença de esforço respiratório aumentado é um dos sinais mais importantes para diagnosticar a obstrução das vias aéreas e o comprometimento da ventilação.

  • Uso de músculos acessórios: Os músculos do pescoço, do tórax e do abdômen (intercostais) começam a ser recrutados para ajudar na inspiração e expiração.
  • Flaring nasal: Dilatação das narinas durante a inspiração, que ocorre quando o corpo tenta aumentar o fluxo de ar para compensar a obstrução.
  • Retratação torácica: Indica que o esforço para expandir os pulmões é tão intenso que provoca o afundamento da pele entre as costelas ou acima da clavícula.

Importância clínica: Esses sinais indicam que a via aérea pode estar comprometida e que pode ser necessária uma intervenção como intubação ou o uso de dispositivos como a máscara laríngea ou a intubação orotraqueal.

3. Padrões de Respiração

Existem padrões respiratórios específicos que podem indicar diferentes tipos de obstrução ou disfunção respiratória:

  • Estridor: Som agudo e inspiratório, que indica obstrução das vias aéreas superiores (laringe ou traqueia).
  • Ronco: Som grave, sugerindo obstrução das vias aéreas inferiores (bronquíolos ou pulmões).
  • Sibilos: Sons agudos durante a expiração, geralmente associados a broncoespasmo (asma, bronquite).
  • Estertores: Sons borbulhantes ou crepitantes indicam acúmulo de secreções nos pulmões (pneumonia, edema pulmonar).
  • Gemência: Som característico durante a expiração, frequentemente relacionado à insuficiência respiratória.
  • Tosse: Indicativa de uma possível obstrução ou infecção.

4. Expansibilidade Torácica e Ausculta Pulmonar

A observação da expansibilidade torácica e da ausculta pulmonar é essencial para detectar sinais precoces de insuficiência respiratória. A expansibilidade simétrica indica boa ventilação. Quando há restrição ou diminuição da mobilidade torácica, pode haver sinais de pneumotórax, consolidação pulmonar ou atelectasia.

Durante a ausculta, a identificação de estertores ou sibilos pode indicar a necessidade de um tratamento imediato, como a administração de bronco dilatadores ou antibióticos.


Identificando Hipoxemia e Sinais de Comprometimento Respiratório Grave

A hipoxemia (saturação de oxigênio abaixo de 92%) é um dos primeiros sinais de comprometimento da via aérea. Em crianças, a diminuição da saturação de oxigênio pode ocorrer rapidamente devido ao menor volume pulmonar e à maior demanda metabólica.

Sinais de hipoxemia e distúrbios respiratórios incluem:

  • Redução do nível de consciência: A hipoxemia pode levar a confusão, sonolência ou até coma. Isso pode ocorrer sem cianose visível, mas é um indicativo de que o cérebro está recebendo oxigênio insuficiente.
  • Cianose: Coloração azulada dos lábios, face ou extremidades, é um sinal tardio de hipoxemia grave.
  • Frequência respiratória inadequada: Tanto uma frequência alta (taquipneia) quanto uma frequência baixa (bradipneia) podem indicar uma diminuição do nível de oxigênio ou obstrução das vias aéreas.
  • Esforço respiratório excessivo: O uso de músculos acessórios é um sinal de que o corpo está lutando para manter a ventilação. A retratação torácica e o flaring nasal são sinais visíveis de que o esforço respiratório está se tornando inadequado.

Finalizando

A avaliação eficaz da via aérea em crianças é uma das habilidades mais críticas para os profissionais de saúde em emergências pediátricas. Através da análise cuidadosa da frequência respiratória, esforço respiratório, ausculta pulmonar e nível de oxigenação, podemos prevenir a deterioração clínica e garantir a melhor resposta terapêutica possível.

Entender os sinais de obstrução parcial ou total das vias aéreas, e as anomalias respiratórias, é vital para implementar as manobras corretas de desobstrução, ventilação e oxigenação, seguindo o protocolo do PALS.


Perguntas rápidas sobre via aérea pediátrica

Quais sinais indicam via aérea difícil ou obstrução iminente em criança?

Estridor progressivo, incapacidade de falar ou chorar, retrações intensas (subcostal, esternal, supraclavicular), cianose e rebaixamento do nível de consciência são sinais de alarme. Diante deles, priorize desobstrução e considere via aérea avançada precocemente — crianças descompensam mais rápido que adultos por terem menor reserva respiratória.

Qual a diferença entre estridor e sibilo?

O estridor é um som agudo, tipicamente inspiratório, que indica obstrução em via aérea superior (laringe, traqueia) — como em crupe ou corpo estranho. O sibilo é um som agudo, predominantemente expiratório, que indica obstrução em via aérea inferior (broncoespasmo), como na asma ou bronquiolite.

Quando devo considerar via aérea avançada (intubação) em pediatria?

Quando há falha na oxigenação/ventilação apesar de manobras básicas (posicionamento, aspiração, O₂ suplementar, BVM), rebaixamento importante do nível de consciência, ou exaustão respiratória iminente. Veja os detalhes de intervenções e dispositivos em intervenções de via aérea e via aérea avançada (DOPE).


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