
Emergência pediátrica: o que fazer nos primeiros minutos
Por Carlos Bruzzi Felipe — Médico, CRMMG 105.721 · Publicado em 01 de setembro de 2026
Emergência pediátrica: o que fazer nos primeiros minutos
Diante de uma emergência pediátrica, os primeiros minutos devem ser organizados por prioridades: reconhecer risco imediato de vida, pedir ajuda, iniciar suporte e reavaliar a resposta continuamente. O objetivo inicial não é descobrir toda a causa, mas impedir que uma alteração de via aérea, respiração, circulação ou consciência evolua sem intervenção.
Este texto é educacional e não substitui treinamento prático, certificação PALS, avaliação presencial ou o protocolo do serviço.
Qual é a primeira prioridade na emergência pediátrica?
A primeira prioridade é verificar se a criança apresenta sinais de comprometimento de via aérea, respiração, circulação ou consciência. Ao mesmo tempo, acione a equipe de emergência, coloque a criança sob monitorização disponível e prepare os recursos necessários para suporte ventilatório e circulatório.
A abordagem deve ser dinâmica: cada intervenção precisa ser seguida de nova avaliação. Se a criança piora, volte ao início do ABCDE e corrija primeiro a ameaça mais imediata à vida.
Como fazer a avaliação ABCDE?
A avaliação primária do PALS usa o ABCDE para identificar e tratar problemas críticos em sequência.
A — Via aérea
Observe se a criança consegue manter a via aérea aberta, se há obstrução, secreções, estridor, roncos ou esforço para respirar. Avalie também se o nível de consciência compromete a proteção da via aérea.
Remova apenas obstruções visíveis e utilize as manobras e dispositivos para os quais a equipe tenha treinamento. Se a via aérea estiver ameaçada, solicite imediatamente o profissional habilitado para o manejo avançado.
B — Respiração
Avalie frequência e esforço respiratório, expansibilidade torácica, presença de cianose, ruídos respiratórios e oxigenação. Sinais como gemência, tiragens importantes, apneia, exaustão, alteração do estado mental ou incapacidade de falar/chorar adequadamente indicam gravidade.
Administre oxigênio e suporte ventilatório conforme a necessidade clínica, o equipamento disponível e o protocolo institucional. A oxigenação isolada não corrige uma ventilação inadequada.
C — Circulação
Observe pulso, frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura e perfusão periférica. Pele fria ou moteada, enchimento capilar prolongado, pulsos fracos, oligúria e alteração do nível de consciência podem indicar choque, mesmo antes de ocorrer hipotensão.
Obtenha acesso vascular conforme treinamento e disponibilidade. O tratamento deve considerar o tipo provável de choque, a resposta às intervenções e o risco de sobrecarga, especialmente em crianças com disfunção cardíaca ou respiratória.
D — Disfunção neurológica
Avalie responsividade, pupilas, glicemia quando indicada e evolução do nível de consciência. Uma redução aguda da responsividade pode ser consequência de hipóxia, hipoperfusão, hipoglicemia, convulsão, intoxicação ou outras causas graves.
Use uma escala padronizada disponível no serviço e compare com o estado basal informado pelos responsáveis ou pela equipe.
E — Exposição
Examine a criança de forma suficiente para identificar lesões, erupções, sangramentos, sinais de trauma ou alterações de temperatura, preservando privacidade e evitando perda de calor. Em trauma, considere o mecanismo da lesão e as precauções apropriadas.
Quando iniciar reanimação pediátrica?
Se a criança estiver inconsciente e não respirar normalmente, avalie a necessidade de iniciar RCP conforme o protocolo local e o treinamento da equipe. Em uma parada cardiorrespiratória, compressões de alta qualidade, ventilação adequada, desfibrilação quando indicada e administração correta de medicamentos dependem de coordenação e prática.
Não atrase a ativação do sistema de emergência nem a utilização do desfibrilador por tentativas prolongadas de obter uma história clínica completa.
Como usar a avaliação secundária?
Depois de tratar as ameaças imediatas, faça a avaliação secundária. O método SAMPLE ajuda a organizar a história dirigida:
- S — sinais e sintomas;
- A — alergias;
- M — medicamentos;
- P — patologias prévias e gravidez quando aplicável;
- L — última refeição;
- E — eventos relacionados ao quadro atual.
A avaliação secundária não deve interromper o tratamento de uma ameaça identificada no ABCDE. Ela serve para completar o contexto, refinar hipóteses e orientar a próxima etapa do cuidado.
Erros comuns nos primeiros minutos
Alguns erros aumentam o risco de atraso:
- começar pela história detalhada antes de corrigir hipóxia ou choque;
- confiar em um único parâmetro, como pressão arterial normal;
- não reavaliar depois de uma intervenção;
- esquecer de comunicar claramente a deterioração à equipe;
- utilizar doses, equipamentos ou algoritmos sem confirmar o protocolo vigente.
Resumo prático
Em uma emergência pediátrica: reconheça a gravidade, peça ajuda, avalie ABCDE, trate a ameaça imediata, monitore a resposta e repita a avaliação. Em seguida, complemente a história com SAMPLE e documente a evolução.
Para estudar cada etapa, continue pelo guia completo de PALS, pela avaliação primária, pela avaliação da consciência e pelo conteúdo de via aérea e oxigenação.
Referências
- American Heart Association. Pediatric Advanced Life Support (PALS). Consulte a versão vigente das diretrizes e do curso.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documentos e recomendações de atendimento à criança gravemente enferma.