Módulo 9 · Aula 4 de 6

Exame Físico Detalhado: Avaliação do Abdome Pediátrico
Por Carlos Felipe — Médico, CRMMG 105.721 · Publicado em 18 de abril de 2025
Palavras-chave: exame físico, abdome, trauma abdominal, dor abdominal, peritonite, distensão abdominal, avaliação visceral, exame de emergência
Como examinar o abdome na criança?
A avaliação do abdome é essencial para identificar sinais de trauma visceral, distúrbios orgânicos e infecções que podem comprometer a saúde do paciente. Durante o exame físico, é importante observar distensão, sensibilidade e alterações nos sons intestinais, além de realizar manobras de palpação e percussão para detectar possíveis anomalias.
1. Inspeção: Observando a Forma e Características do Abdome
A inspeção inicial do abdome fornece informações cruciais sobre possíveis distúrbios viscerais, como distensão abdominal, ecimoses ou sinais de trauma.
O que observar:
- Forma do abdome: Observe se o abdome está distendido ou deformado, o que pode ser indicativo de acúmulo de gás (em casos de obstrução intestinal) ou líquido (como em ascite).
- Cicatrizes ou hematomas: Cicatrizes cirúrgicas ou hematomas podem indicar trauma ou cirurgia prévia. A presença de ecimoses pode sugerir lesões internas ou ruptura de órgãos.
- Movimentos anormais: Observe se há movimentos peristálticos visíveis, que podem sugerir obstrução intestinal ou distensão.
- Sinais de inflamação: Em casos de peritonite ou infecções, o abdome pode apresentar sinais de hiperemia ou irritação.
2. Palpação: Identificando Dor, Massa ou Anomalias
A palpação do abdome é fundamental para identificar áreas de dor, masses ou resistência muscular que podem ser indicativas de condições graves, como apendicite ou peritonite.
O que observar:
- Sensibilidade à palpação: Comece a palpação suavemente, indo de áreas distantes da dor para evitar provocar desconforto adicional. A dor localizada pode sugerir condições como apendicite ou úlcera perfurada.
- Resistência muscular: Se o abdome estiver tenso e doloroso ao toque, pode indicar peritonite ou irritação peritoneal. A rigidez abdominal pode ser observada como um reflexo involuntário de proteção.
- Massa abdominal: A presença de uma massa palpável pode sugerir várias condições, incluindo tumores, abscessos ou herniações.
- Pulsação abdominal: Palpe o abdome para detectar uma pulsação anormal, que pode ser um sinal de aneurisma da aorta abdominal.
3. Percussão: Avaliando o Conteúdo Abdominal
A percussão do abdome permite a identificação de anomalias como distensão intestinal, acúmulo de líquido ou presença de massas.
O que observar:
- Som timpânico: O som de tímpano é normal e pode indicar a presença de gás no intestino. No entanto, a ausência desse som pode sugerir obstrução intestinal ou distensão por gás.
- Som submaciço ou maciço: Se o som for mais maciço, isso pode indicar a presença de líquido (ascite) ou consolidação abdominal (como em abscessos ou tumores).
- Percussão do fígado e baço: Percussionar as áreas do fígado e baço pode ajudar a identificar hepatomegalia ou esplenomegalia, que podem indicar doenças hepáticas ou infecções sistêmicas.
4. Ausculta: Verificando Sons Intestinais e Vasculares
A ausculta abdominal é importante para detectar sinais de distúrbios intestinais, como obstrução intestinal ou hipoperfusão mesentérica. Além disso, pode ajudar na identificação de sons vasculares anormais.
O que observar:
- Sons intestinais: A presença de sons peristálticos normais é indicativa de um trato gastrointestinal saudável. A ausência desses sons pode sugerir paralisia intestinal ou obstrução.
- Hiperperistalse (sons muito intensos ou rápidos) pode indicar uma obstrução intestinal inicial.
- Sons diminuídos ou ausentes indicam uma possível paralisia intestinal ou peritonite.
- Sons vasculares: Ausculte para a presença de sopros sobre a aorta abdominal ou os vasos renais, que podem indicar aneurisma da aorta abdominal ou estenose renal.
5. Exame Retal: Avaliação do Abdome Inferior
Em casos de suspeita de obstrução intestinal ou condições que envolvem a pelve, um exame retal pode ser necessário para avaliar o trato gastrointestinal inferior.
O que observar:
- Sinais de sangramento: Verifique a presença de sangue nas fezes ou ao redor do reto, o que pode sugerir condições como hemorróidas ou sangramento gastrointestinal.
- Tônus retal: Avaliar o tônus muscular do reto pode ser útil para descartar lesões neurológicas que afetem o controle do esfíncter.
- Massa palpável: A presença de uma massa palpável no reto pode indicar tumores ou abscessos.
Resumo Prático
- A inspeção abdominal pode revelar distensão, ecimoses ou sinais de trauma.
- A palpação ajuda a identificar áreas dolorosas, masses ou resistência muscular.
- A percussão é útil para detectar gás, líquido ou masses no abdome.
- A ausculta abdominal permite avaliar a presença de sons intestinais normais ou anormais, além de sons vasculares.
- O exame retal pode ser necessário para avaliação do trato inferior e detectar sangramentos ou massas.
No exame abdominal, uma avaliação completa permite identificar rapidamente condições graves, como peritonite, obstrução intestinal ou ruptura de órgãos internos.
Perguntas rápidas sobre o exame físico do abdome
Qual a ordem correta das etapas no exame abdominal?
Inspeção, ausculta, percussão e palpação — nessa ordem. A ausculta vem antes da palpação e percussão porque manipular o abdome pode alterar os ruídos hidroaéreos, prejudicando a avaliação real do trânsito intestinal.
Distensão abdominal súbita em criança é sempre sinal de gravidade?
Não necessariamente, mas exige atenção. Pode indicar obstrução intestinal, ascite, acúmulo de gás ou, em contexto de trauma, sangramento interno. Associada a dor, rigidez ou instabilidade hemodinâmica, é sinal de alerta para abordagem emergencial.
Quando o exame retal é indicado no exame físico abdominal?
Em suspeita de obstrução intestinal, sangramento gastrointestinal ou condições envolvendo a pelve. Ele avalia tônus retal, presença de sangue e massas palpáveis, complementando os achados da inspeção e palpação abdominal.
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